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Caminho Francês 3ª e 4ª etapa


30 junho 2026

Ação Social e Cultural

Caminho Francês 3ª e 4ª etapa

A partir de Sarria - Quando Santiago se aproxima!

Iniciámos a 3.ª etapa do Caminho Francês em Sarria, no emblemático quilómetro 115.

Aqui, o Caminho transforma-se: multiplicam-se os peregrinos, intensifica-se a energia e sente-se ainda mais forte o espírito da peregrinação.

Se para muitos Sarria é o ponto de partida da peregrinação, para quem vem desde O Cebreiro é um marco especial, um sinal da proximidade da tão desejada chegada a Santiago. O tempo mostrava-se favorável, com céu ameno e uma brisa maravilhosa que nos acompanhou, tornando o caminho mais suave. Subimos a Rua Maior, passámos na igreja românica de San Salvador, continuámos até ao albergue Monastério de la  Magdalena e cruzámos uma estreita ponte romana, firme sobre o tempo, testemunho silencioso de séculos de peregrinação. Depois vieram os bosques de castanheiros. Majestosos. Antigos. Os seus troncos enormes, grossos e retorcidos pelo tempo desenhavam formas surpreendentes, como esculturas naturais moldadas pela própria natureza. E entre aldeias e trilhos, foram-se abrindo diante de nós campos verdes a perder de vista. O gado pastava tranquilamente, compondo uma paisagem serena e autêntica, típica desta região da Galiza. E a brisa continuava a acompanhar-nos. Foi então que surgiu o quilómetro 100. Parámos para a inevitável fotografia, celebrando não apenas a distância percorrida, mas também a emoção de saber que Santiago está cada vez mais perto: “É já ali!”. Terminámos a etapa em Paradela, a poucos quilómetros de Portomarín, com os pés cansados, mas a alma leve. Fizemos um pequeno desvio e recolhemo-nos em Lugo para descansar.

No dia seguinte, entregámo-nos à descoberta das suas ruas e da sua história. Passear por Lugo foi prolongar a viagem no tempo. As impressionantes muralhas romanas, erguidas há quase dois mil anos e ainda hoje perfeitamente preservadas, abraçam a cidade como um círculo de pedra e memória. Caminhámos sobre elas observando telhados, praças e igrejas, sentindo a presença viva da história em cada recanto. Entre os caminhos rurais da Galiza e as muralhas milenares de Lugo, ficaram imagens que dificilmente o tempo apagará: a brisa fresca da manhã, os castanheiros centenários, os campos sem fim, a emoção do quilómetro 100 e a serenidade de uma cidade que continua a guardar, pedra sobre pedra, a memória de um passado distante. Continuámos em direção a Portomarín. A aproximação a Portomarín reservava-nos um dos momentos exigentes da etapa. O caminho mergulhava numa descida estreita e sinuosa, encaixada entre antigos muros de pedra. A humidade acumulada tornava o piso traiçoeiro, obrigando cada passo a ser pensado e medido. O corpo inclinava-se numa tentativa instintiva de encontrar equilíbrio, enquanto os bastões procuravam firmeza onde ela nem sempre existia. Não havia espaço para distrações. A paisagem continuava bela, mas naquele momento toda a atenção pertencia ao caminho. Avançávamos muito devagar. Depois da exigente descida, Portomarín surgiu diante de nós. Atravessámos a ponte sobre o rio Minho e subimos a célebre escadaria em granito que conduz ao coração da povoação, sempre a subir! Diante dos nossos olhos, a imponente Igreja de São Nicolau, semelhante a uma fortaleza medieval, dominava a praça principal. Mas é quando conhecemos a história da vila que Portomarín ganha uma dimensão verdadeiramente fascinante. A antiga povoação encontra-se submersa sob as águas da barragem de Belesar. Nos anos 1960, para evitar que o património desaparecesse, os seus monumentos mais importantes foram desmontados pedra a pedra, numerados e reconstruídos no local onde hoje se encontram. Diz-se que, nos períodos de seca mais intensa, ainda emergem vestígios das construções originais, como fantasmas de um passado que se recusa a desaparecer.

 

De Portomarín a Gonzar: Uma etapa de superação e boa disposição

 

O percurso até Gonzar, com os termómetros à volta dos trinta graus, foi numa verdadeira prova de resistência. O sol incidia sobre os caminhos abertos, obrigando-nos a procurar refúgio sempre que surgia uma pequena sombra. E, depois de horas de caminhada sob um calor intenso, a Hosteria de Gonzar surgiu como um porto seguro para recuperar energias. Ora, numa jornada marcada pelas altas temperaturas, os gelados tornaram-se autênticos aliados nossos, não esquecendo as “Milnueve” e os momentos de descontração, bom humor e amizade.

Um dos nossos companheiros aceitou o desafio de seguir "em primeira classe", enquanto outros, autênticos especialistas em manobras e condução de alta precisão — pelo menos na opinião deles próprios — assumiram o comando do veículo. Entre curvas imaginárias, gargalhadas e fotografias, o improvisado meio de transporte percorreu apenas alguns metros, mas foi suficiente para proporcionar um momento de diversão para todos. Mais do que aliviar o cansaço, estes momentos reforçam o espírito de companheirismo que caracteriza o nosso Caminho.

 

De Gonzar a Ligonde: Entre o calor e a determinação

 

A etapa entre Gonzar e Ligonde revelou-se uma etapa bastante exigente. Desde os primeiros quilómetros, o calor fez-se sentir com intensidade, transformando uma caminhada aparentemente tranquila num verdadeiro teste de resistência física e mental. Mas foi a subida antes de Ligonde que marcou verdadeiramente esta jornada. A inclinação, aliada às elevadas temperaturas, obrigou cada peregrino a encontrar o seu próprio ritmo. Quando finalmente chegámos a Ligonde, a sensação de conquista foi evidente. A chegada trouxe o merecido descanso e a satisfação de mais uma meta alcançada. O calor tinha sido intenso, a subida exigente, mas a recompensa estava precisamente aí: na certeza de que cada obstáculo ultrapassado torna o Caminho ainda mais especial.

Esta etapa ensinou-nos que o Caminho não é apenas uma sucessão de quilómetros. É também um exercício de paciência, de superação e de capacidade para continuar a avançar, mesmo quando o sol aperta e a subida parece não ter fim.


Caminho Francês - Etapa 3 e 4  

 


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