2 Fevereiro 2026
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Vivemos um tempo em que a inteligência artificial, em particular a IA generativa, é frequentemente apresentada como um destino inevitável. Um caminho sem retorno, que as instituições educativas devem simplesmente aceitar e integrar, sob pena de ficarem “para trás”. No entanto, a questão que verdadeiramente se coloca não é se a tecnologia deve ou não entrar nas escolas e nas universidades, porque isso já está a acontecer, mas como entra, com que objetivos e sob que responsabilidade pedagógica e ética.
Não encaro a inteligência artificial como uma ameaça em si mesma. Pelo contrário, reconheço o seu enorme potencial enquanto ferramenta de apoio à aprendizagem, à diferenciação pedagógica, à inclusão e até à redução de tarefas administrativas que hoje consomem tempo precioso aos docentes. A tecnologia pode libertar tempo para aquilo que é essencial: o acompanhamento dos alunos, a reflexão pedagógica, o trabalho colaborativo e a construção de conhecimento.
Contudo, seria um erro grave confundir inovação com substituição. A escola não pode transformar-se num espaço de delegação cognitiva, onde pensar, escrever, investigar ou decidir são progressivamente terceirizados para sistemas automáticos. A aprendizagem implica esforço, dúvida, erro, argumentação e reconstrução de ideias. Sem esse processo, não há verdadeiro desenvolvimento intelectual, apenas consumo de respostas prontas.
O receio manifestado por muitos professores é legítimo. Há incerteza sobre a forma de avaliar, sobre os limites éticos do uso da IA, sobre o plágio, sobre a perda de autonomia intelectual dos alunos e, sobretudo, sobre a sua própria capacidade para acompanhar esta transformação. Mas também é evidente que, em muitos casos, esses receios convivem com desinformação e falta de formação, criando um cenário paradoxal: tecnologias cada vez mais presentes nas salas de aula e professores cada vez mais sozinhos a tentar compreendê-las.
Proibir pura e simplesmente o uso da IA é uma falsa solução. Não só é ineficaz, como empurra o problema para a invisibilidade. Os alunos continuarão a usar estas ferramentas fora do olhar pedagógico, sem critérios, sem reflexão crítica e sem orientação ética. O resultado será uma escola desligada da realidade e incapaz de cumprir a sua missão formativa.
A alternativa é clara: formar, capacitar e envolver os professores e educadores como protagonistas desta mudança. Não basta distribuir dispositivos ou impor plataformas. É necessário investir seriamente em formação contínua, em espaços de partilha de práticas, em reflexão pedagógica e em tempo para experimentar, errar e aprender. Mas isso só será possível se forem garantidas condições reais de trabalho aos docentes, nomeadamente tempo efetivo para o poderem fazer, sem sobrecarga de funções nem acumulação de tarefas que ultrapassam claramente o seu horário e as suas responsabilidades profissionais. Sem esse enquadramento, qualquer discurso sobre inovação corre o risco de se transformar em mais um fator de pressão, desgaste e desmotivação, em vez de promover o envolvimento e a capacitação que verdadeiramente se pretendem.
Saber “perguntar” passa a ser uma competência central. Perguntar bem, problematizar, comparar respostas, analisar fontes, discutir limites, identificar enviesamentos e reconhecer riscos. A IA pode ser um recurso poderoso para estimular o pensamento crítico, desde que seja usada como meio e não como fim.
Defendo, por isso, que esta transição tecnológica deve ser encarada como uma responsabilidade coletiva do sistema educativo. Não pode recair apenas sobre a boa vontade individual dos professores. Exige políticas públicas, enquadramento ético, investimento em formação e reconhecimento do papel insubstituível do docente enquanto mediador do conhecimento, orientador do pensamento e construtor de sentido.
A inteligência artificial pode ser uma aliada. Mas só será verdadeiramente educativa se for integrada por professores confiantes, formados e críticos. Caso contrário, arriscamo-nos a ter alunos mais rápidos a obter respostas, mas cada vez menos capazes de pensar por si.
E isso, sim, seria o verdadeiro fracasso da inovação.
Porto, 2 de fevereiro de 2026
Pedro Barreiros
Secretário-Geral da FNE
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